Pensando alto
Eu não sei como voltar, se é que voltar é uma opção.
Depois de uma longa pausa e de uma transformação profunda (maternidade e dois puerpérios), é difícil acreditar que exista um lugar para onde voltar.
É como tentar visitar a escola que você frequentava quando criança, mas que virou prédio. Você guarda lembranças do lugar, sabe onde ficava a escada, as salas, as pinturas da parede, lembra até a cor do piso, mas não consegue mais acessar aquele espaço. Só na sua memória.
Aquele território que é parte importante de você, onde você se reconhece e é reconhecida, já não parece o mesmo. Tudo é familiar, mas nada é igual. As referências estão ali, mas não te tocam do mesmo jeito. Muita coisa aconteceu enquanto você estava em pausa. Você mudou, cresceu e a vida seguiu sem te esperar. Voltar seria, no mínimo, estranho.
E, mesmo que você insista em dizer que é lá o seu lugar, existe agora um abismo enorme entre vocês. Não há pontes ou atalhos, só melancolia e distanciamento.
E então, silêncio.
E ele dura tempo suficiente para você perceber que está perdida. E é aí que tudo fica ainda mais assustador.
Porque agora muitas perguntas ecoam entre as paredes do precipício: se não dá pra voltar, pra onde eu vou? Como? Que ferramentas levar? Ainda tenho tempo pra construir um novo caminho? Será que estou velha demais? E agora?
Agora é começar de novo.
Mas não do início.
Levo o básico numa trouxinha pendurada no ombro e uma flor na mão. Como O Louco do tarô, me jogo nessa nova aventura, mas com a coragem ainda tímida.
Quem me acompanha há mais tempo sabe que escrevo pra me entender melhor. E, por isso, essa newsletter nasce, não pra encontrar um destino, mas para falar o que penso enquanto caminho.
Pega um café. Me faz companhia.
Essa jornada começa aqui, e eu não faço ideia para onde a gente vai.
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Escrevo aqui a cada quinze dias.
Quando dá. Quando me pego pensando alto.



