A Pausa
Talvez essa não seja uma continuação. Talvez seja um começo diferente.
Eu sabia que ia parar e achei que estava bem com isso.
Me preparei pra ter momentos de paz e tranquilidade. Pensei que seria bom finalmente não pensar em trabalho ou em números e finalmente desacelerar. Acreditei que isso me traria algum alívio. Romantizei, confesso. Afinal, pausas na vida adulta são raras e eu queria aproveitar.
Mas não foi bem isso que aconteceu.
Quando de fato parei, percebi que a pausa tinha um peso enorme. Depois dos 40 (um pouco mais, um pouco menos) ela vem cheia de cobranças. Isso porque o ócio é um corpo estranho na rotina adulta e se apresenta de forma muito diferente de quando somos crianças. A criatividade despreocupada não encontra terreno fértil em chão ansioso.
O corpo tenta parar, mas o pensamento continua correndo.
É como se você estivesse dirigindo por uma autoestrada, cheia de carros em alta velocidade, seguindo cegamente seus destinos. Você segue com eles até precisar ir para o acostamento porque perdeu o sinal do GPS.
Os carros vão seguindo, cada vez mais rápidos, enquanto você está ali, parado. É aí que a culpa chega, e junto dela, a angústia, porque ninguém quer ficar para trás.
Você fica tão envolvido na urgência de voltar que nem observa onde está, não percebe a paisagem ao redor nem o quanto ela mudou desde que você começou a viagem. Acaba se apegando a desejos antigos e não sabe se eles ainda estão vivos em você.
Será que realmente quer voltar para esse caminho? Talvez não faça mais sentido seguir por uma estrada que você já não sabe se é sua, não é mesmo?
Então você para de verdade.
E respira.
(respira)
É nessa pausa consciente que algo muda. Aquilo que parecia uma parada indesejada começa a se revelar como uma necessidade real.
Sem a correria da estrada, você consegue agora olhar o entorno, observar a paisagem com atenção, entender seus contornos, suas cores e seus vazios. Você finalmente tira os olhos do ponto de chegada e enxerga as muitas outras possibilidades do caminho. Pode rever seus planos, pedir ajuda ou até voltar uma ou duas cidades. São muitas as saídas e todas são válidas.
Nesse vai e volta, entre ir e ficar, comecei a me dar o luxo de olhar para mim com honestidade para entender para onde eu realmente queria ir e reconhecer onde eu já não cabia mais.
Dia desses, uma frase me atravessou no trânsito veloz do Instagram, e ela tem muito a ver com isso. Talvez sirva para você também:
“Se você pegou o trem errado, desça na primeira estação. Quanto mais tempo demorar para descer, mais cara será a viagem de volta.”
Isso me atravessou. Quantas vezes eu soube que não estava no caminho certo, mas a correria da estrada não me permitiu procurar um retorno?
Não foi uma revelação bonita, mas foi necessária.
Talvez a pausa seja isso: descer do trem. Descer para olhar outros lugares que você pode habitar, se envolver, experimentar e então seguir por um caminho que faça mais sentido.
No final, entendi que a única coisa que a pausa te pede de verdade não é culpa, nem pressa. É coragem. Coragem para descer do trem, para escolher outro caminho ou até mesmo para voltar para o mesmo comboio, mas agora porque você quer.
No meu caso, ainda estou aqui no acostamento, observando os carros passarem. Olhando os caminhos possíveis, aproveitando a pausa e, mesmo que sem tanto ânimo, ansiosa para decidir como recomeçar minha viagem.
Talvez eu me perca de novo, pode acontecer.
Quem sabe a pausa também não sirva para isso: para que você se perca, mas, dessa vez, por escolha.
—
Escrevo aqui a cada quinze dias.
Quando dá. Quando me pego pensando alto.



